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TEMPO COMUM. OITAVA SEMANA. QUINTA-FEIRA

67. A FÉ DE BARTIMEU

– A oração de Bartimeu supera todos os obstáculos.

– Fé e desprendimento para seguir o Senhor. Oração pessoal, direta, sem anonimato.

– Seguir a Cristo também nos momentos de escuridão. Confissão externa da fé.

I. SÃO MARCOS RELATA no Evangelho da Missa de hoje1 que Jesus, ao sair de Jericó a caminho de Jerusalém, passou por um cego, Bartimeu, filho de Timeu, que estava sentado à beira do caminho pedindo esmola.

Bartimeu “é um homem que vive mergulhado na escuridão, um homem que vive na noite. Ele não pode, como outros enfermos, chegar até Jesus para ser curado. E teve notícia de que há um profeta de Nazaré que devolve a vista aos cegos”2. Também nós, comenta Santo Agostinho, “temos os olhos do coração fechados, e Jesus passa para que clamemos por Ele”3.

Quando o cego sentiu o tropel da multidão, perguntou o que era aquilo; “certamente, tinha-se acostumado a distinguir os ruídos: os ruídos das pessoas que iam para o trabalho no campo, os ruídos das caravanas que se punham a caminho de terras longínquas. Mas um dia [...] soube que era Jesus de Nazaré quem passava. Ouviu ruídos a uma hora inesperada e perguntou – porque não eram os ruídos com que estava familiarizado, eram ruídos de uma multidão diferente –: «Que está acontecendo?»”4 E dizem-lhe: É Jesus de Nazaré.

Ao ouvir este nome, o seu coração encheu-se de fé. Jesus era a grande oportunidade da sua vida. E começou a gritar com todas as suas forças: Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim! Na sua alma, a fé torna-se oração. “Tal como a ti, quando suspeitaste que Jesus passava a teu lado. Aceleraram-se as batidas do teu peito e começaste também a clamar, sacudido por uma íntima inquietação”5.

As dificuldades começam logo para aquele homem que, no meio da sua cegueira, procura a Cristo que passa perto da sua vida. Muitos o increpavam para que se calasse. Santo Agostinho comenta esta frase do Evangelho fazendo notar que, quando uma alma se decide a chamar pelo Senhor ou a segui-lo, freqüentemente encontra obstáculos nas pessoas que o rodeiam: “Quando eu começar a dar esses passos, os meus parentes, vizinhos e amigos começarão a ferver. Os que amam o sigilo pôr-se-ão diante de mim. Ficaste louco? Como és exagerado! Por acaso os outros não são cristãos? Isso é uma tolice, uma loucura. E as pessoas dizem tais coisas para que nós, os cegos, não gritemos”6. “E amigos, costumes, comodidades, ambiente, todos te aconselharam: Cala-te, não grites! Por que hás de chamar por Jesus? Não o incomodes!”7

Bartimeu não lhes faz caso; Jesus é a sua grande esperança, e ele não sabe se tornará a encontrá-lo. E, ao invés de calar-se, clama mais alto: Filho de Davi, tem compaixão de mim. “Por que hás de obedecer às admoestações do povo e não caminhar sobre as pegadas de Jesus que passa? Hão de insultar-te, morder-te, empurrar-te para trás, mas tu clama até que os teus clamores cheguem aos ouvidos de Jesus, pois quem for constante naquilo que o Senhor mandou – sem se importar com a opinião das multidões, sem fazer muito caso dos que aparentemente seguem a Cristo, preferindo a vista que Cristo lhe dará ao estrépito dos que gritam –, esse não poderá ser retido por nenhum poder, e Jesus se deterá e o curará”8.

Efetivamente, “quando insistimos fervorosamente na nossa oração, detemos Jesus que passa”9. A oração do cego é escutada. Conseguiu o seu propósito, apesar das dificuldades externas, da pressão do ambiente que o rodeia e da sua própria cegueira, que o impedia de saber exatamente onde é que Jesus se encontrava.

“Não te dá vontade de gritar, a ti, que também estás parado à beira do caminho, desse caminho da vida, que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graças para te decidires a procurar a santidade? Não sentes a urgência de clamar: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim? Que maravilhosa jaculatória, para que a repitas com freqüência!”10

II. O SENHOR, QUE OUVIRA BARTIMEU desde o começo, “deixou-o perseverar na sua oração. Tal como a ti. Jesus apercebe-se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos dEle; quer que supliquemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho à saída de Jericó”11.

A comitiva detém-se e Jesus manda chamar o cego. Ânimo, levanta-te, pois Ele te chama. Bartimeu lançou fora a capa, e, saltando, aproximou-se de Jesus. “Arremessou a capa! Não sei se estiveste na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de pisar um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. E lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas... E não eram dos derrotados, eram dos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava, para correrem mais depressa e saltarem o parapeito inimigo: tal como no caso de Bartimeu, para correr atrás de Cristo. Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso sacrifício; jogar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil”12.

Agora Bartimeu está diante de Jesus. A multidão rodeia-os e contempla a cena. O Senhor pergunta: Que queres que te faça? Ele, que podia restituir a vista, por acaso ignorava o que o cego queria? Jesus deseja que lhe peçamos.

“O cego respondeu imediatamente: Senhor, que eu veja. Não pede ao Senhor ouro, mas a vista. Pouco lhe importa tudo o que não seja ver, porque, ainda que um cego possa ter muitas coisas, sem a vista não pode ver o que tem. Imitemos, pois, aquele que acabamos de ouvir”13.

Imitemo-lo na sua grande fé, na sua firmeza em não ceder ao ambiente adverso, imitemo-lo na sua oração perseverante. “Ao percebermos a nossa cegueira, sentados à beira do caminho das Escrituras e ouvindo Jesus que passa, oxalá o façamos deter-se junto de nós com a força da nossa oração”14, que deve ser como a de Bartimeu: pessoal, direta, sem anonimato.

III. A HISTÓRIA DE BARTIMEU é a nossa própria história, pois também nós estamos cegos para muitas coisas, e Jesus está passando pela nossa vida. Talvez já tenha chegado o momento de deixarmos a beira do caminho e avançarmos ao encontro de Jesus.

Senhor, que eu veja! As palavras do cego podem servir-nos como uma jaculatória simples que nos aflore ao coração e aos lábios: de modo particular, quando tivermos de enfrentar questões ou situações que não saibamos como resolver, mas sobretudo em matérias relacionadas com a fé e com a vocação. “Quando se está às escuras, com a alma cega e inquieta, temos de recorrer, como Bartimeu, à Luz. Repete, grita, insiste com mais força: «Domine, ut videam!» – Senhor, que eu veja!... E far-se-á dia para os teus olhos, e poderás alegrar-te com o clarão de luz que Ele te concederá”15.

Nesses momentos de escuridão, quando talvez já não sintamos o entusiasmo sensível dos primeiros tempos em que seguimos o Senhor; quando talvez a oração se torne custosa e a fé pareça debilitar-se; quando deixemos de ver com tanta clareza o sentido de uma pequena renúncia e os frutos do nosso esforço apostólico pareçam ocultar-se, precisamente então deveremos intensificar a oração. Ao invés de abandonarmos ou espaçarmos o trato com Deus, será o momento de mostrarmos ao Senhor a nossa lealdade, a nossa fidelidade, redobrando o empenho em agradar-lhe, por maior que seja o esforço que isso nos exija.

Jesus disse-lhe:Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente recuperou a vista. A primeira coisa que Bartimeu viu neste mundo foi o rosto de Cristo. Não o esqueceria nunca. E seguia-o pelo caminho.

E a única coisa que sabemos de Bartimeu, depois de ter sido curado, é que seguia o Senhor pelo caminho. Diz São Lucas que o seguia glorificando a Deus. E todo o povo que isto presenciou dava glória a Deus16. Durante toda a sua vida, Bartimeu recordaria a misericórdia de Jesus. Muitos se converteriam à fé pelo seu testemunho.

Nós também recebemos muitas graças. Iguais ou maiores que a do cego de Jericó. E o Senhor espera também que a nossa vida e a nossa conduta sirvam para que muitos encontrem Jesus presente no nosso tempo.

E seguia-o pelo caminho glorificando a Deus. É um resumo também do que pode chegar a ser a nossa própria vida, se tivermos uma fé viva e operativa como a de Bartimeu.

Com palavras do hino eucarístico Adoro te devote, acabamos a nossa oração:

Iesu, quem velatum nunc aspicio,

oro, fiat illud quod tam sitio;

ut te revelata cernens facie,

visu sim beatus tuae gloriae. Amen.

Jesus, a quem agora contemplo escondido, / rogo-Vos se cumpra o que tanto desejo: / que, ao contemplar-Vos face a face, / seja eu feliz vendo a vossa glória. Amém.

(1) Mc 10, 46-52; (2) A. G. Dorronsoro, Tiempo para creer, Rialp, Madrid, 1982, pág. 89; (3) Santo Agostinho, Sermão 88, 9; (4) A. G. Dorronsoro, op. cit.; (5) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 195; (6) Santo Agostinho, op. cit.; (7) Josemaría Escrivá, op. cit.; (8) Santo Agostinho, op. cit.; (9) São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, 196; (10) Josemaría Escrivá, op. cit.; (11) ib.; (12) ib., n. 196; (13) São Gregório Magno, op. cit., 27; (14) Orígenes, Homilias sobre São Mateus, 12, 20; (15) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 862; (16) Lc 18, 43.

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