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TEMPO COMUM. DÉCIMA QUARTA SEMANA. SÁBADO

18. AMOR À VERDADE

– Falar de Deus e da sua doutrina com clareza e firmeza, sem medos.

– Agir sempre em consciência. Sinceridade conosco próprios.

– Dizer sempre a verdade: nas coisas importantes e no que parece pequeno.

I. O EVANGELHO DA MISSA1 é um novo convite do Senhor para que levemos uma vida veraz, resultado da fé que trazemos no coração, sem medo dos contratempos e das murmurações que seguir o Senhor de perto nos acarreta por vezes. Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Se ao amo da casa chamaram‑no Belzebu, quanto mais aos da sua casa. Não os temais...

Pode acontecer que numa ou noutra situação tenhamos que sofrer a calúnia ou a difamação por sermos verazes, por sermos fiéis à verdade; noutras, as nossas palavras ou as nossas ações serão talvez mal interpretadas. Em qualquer caso, o Senhor espera de nós, seus discípulos, que falemos sempre com clareza, abertamente: O que vos digo às escuras, dizei‑o à luz do dia; e o que escutastes ao ouvido, proclamai‑o sobre os telhados.

Com uma pedagogia divina, Jesus fora falando às multidões em parábolas e descobrira‑lhes pouco a pouco a sua verdadeira personalidade e as verdades do Reino. Mas jamais disfarçou a sua doutrina. Depois da vinda do Espírito Santo, os que o seguissem deveriam proclamar a verdade à luz do dia, em cima dos telhados, sem medo de que a doutrina que ensinassem fosse oposta às opiniões que estivessem na moda ou arraigadas no ambiente. De que outra forma poderiam converter o mundo?

Alguns pensam, por tática ou por covardia, que a vida dos cristãos e a sua concepção do mundo, do homem e da sociedade, devem passar inadvertidas quando as circunstâncias são adversas ou comprometedoras. Esses cristãos ficariam então como que “emboscados” no meio de uma sociedade orientada para objetivos radicalmente diferentes; e não teria nenhuma ressonância o fato de serem homens e mulheres que olham para Cristo como o ideal supremo. Essa não é a doutrina do Senhor.

“«Ego palam locutus sum mundo»: Eu preguei publicamente diante de toda a gente, responde Jesus a Caifás, quando se aproxima o momento de dar a sua Vida por nós.

“– E, no entanto, há cristãos que se envergonham de manifestar «palam» – patentemente – veneração pelo Senhor”2.

Na sociedade em que vivemos, teremos que falar com firmeza – com a segurança de quem tem a verdade do seu lado – de muitos temas de grande transcendência para a família, para a sociedade e para a dignidade da pessoa: indissolubilidade do casamento, liberdade de ensino, doutrina da Igreja sobre a transmissão da vida humana, dignidade e beleza da castidade, sentido grandioso do celibato e da virgindade por amor de Cristo, conseqüências da justiça social em relação aos gastos perdulários ou simplesmente desnecessários, aos salários injustos... Talvez haja ocasiões em que, por prudência ou por caridade, devamos calar‑nos. Mas nem a prudência nem a caridade nascem da covardia ou do comodismo. E nunca é prudência calar‑se quando desse modo se dá lugar ao escândalo ou à desorientação, ou quando essa atitude equívoca debilita a fé dos outros.

O que vos digo às escuras, dizei‑o à luz do dia... O Senhor dirige‑se com essas palavras a cada um de nós, pois são muitos os inimigos de Deus e da verdade que pretendem e se empenham em conseguir que os cristãos não sejam nem sal nem luz no meio das tarefas que os ocupam.

II. HÁ UM EPISÓDIO no Evangelho3 que nos mostra como agiam uns fariseus que não se caracterizavam pelo seu amor à verdade. Enquanto Jesus passava pelos átrios do Templo, aproximaram‑se dEle os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos para perguntar‑lhe: Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deu poder? O Senhor está disposto a responder‑lhes se eles demonstrarem sinceridade de coração. Pergunta‑lhes o que pensam do batismo de João: se era do céu, e portanto gozava da aprovação divina, ou se era apenas dos homens, e como tal não merecia maior consideração.

Mas eles não lhe dão a sua opinião autêntica, a sua opinião em consciência. Analisam antes as conseqüências das suas possíveis respostas, procurando a mais conveniente para a situação em que se encontram: “Se dissermos do céu – pensam –, dirá: Por que não crestes nele? Mas se dissermos que o batismo do Precursor era dos homens, a multidão nos apedrejará”, porque todos tinham João por um verdadeiro profeta.

Apesar de serem líderes religiosos, não são homens de princípios capazes de informar as suas palavras e as suas obras. “São homens «práticos», dedicam‑se a fazer «política». No que tange ao seu interesse ou comodidade, o raciocínio que fazem é inteligente. Mas não estão dispostos a ir mais longe no seu raciocinar: são homens em quem o comodismo substituiu a consciência”4. Têm por norma de conduta seguir o mais conveniente em cada ocasião. Não atuam de acordo com a verdade. Por isso dizem: Não sabemos. Não lhes interessava sabê‑lo e muito menos dizê‑lo.

A reação de Jesus é muito significativa: Então também eu não vos direi com que autoridade faço estas coisas. É como se lhes dissesse: se não estais dispostos a ser sinceros, a olhar nos vossos corações e a encarar a verdade, é inútil o diálogo. Eu não posso falar convosco nem vós comigo. Não nos entenderíamos.

Acontece o mesmo todos os dias. “A pessoa cuja vida não se rege pela sinceridade, por uma disposição habitual de encarar a verdade ou os ditames da consciência – por mais incômodos ou duros que sejam –, afasta‑se rotundamente de toda a possibilidade de comunicação divina. Quem tem medo de olhar de frente a sua consciência tem medo de olhar de frente para Deus, e só os que se dispõem a estar cara a cara com Deus podem ter verdadeiro trato de amizade com Ele”5. Não é possível encontrar a Deus sem este amor radical pela verdade. Como também não é possível entender‑se com os homens e conviver com eles.

O amor à verdade levar‑nos‑á a ser sinceros em primeiro lugar conosco próprios, a manter uma consciência clara, sem subterfúgios, a não permitir que fique embaçada por erros não admitidos, por ignorâncias culposas, pelo medo de aprofundar nas exigências pessoais que a verdade implica. Se, com a ajuda da graça, formos sinceros conosco próprios, também o seremos com Deus, e a nossa vida se inundará de luz, de paz e de fortaleza. “Lias naquele dicionário os sinônimos de insincero: «ambíguo, ladino, dissimulado, matreiro, astuto»... – Fechaste o livro, enquanto pedias ao Senhor que nunca pudessem aplicar‑se a ti esses qualificativos, e te propuseste aprimorar ainda mais esta virtude sobrenatural e humana da sinceridade”6.

III. NUM MUNDO em que a mentira e a dissimulação constituem tantas vezes o miolo do comportamento habitual de muitos, nós, os cristãos, devemos ser homens verazes, que fogem sempre até da mais pequena mentira. Devemos ser conhecidos pelos que convivem conosco como homens e mulheres que nunca mentem, mesmo nos assuntos de pouca importância, que eliminaram das suas vidas o que cheira a dissimulação, a hipocrisia, a falsidade, que sabem retificar quando erram. A nossa vida terá então uma grande fecundidade apostólica, pois sempre se pode confiar numa pessoa íntegra, que sabe dizer a verdade com caridade, sem ferir, com compreensão para com todos.

“Quantas debilidades, quanto oportunismo, quanto conformismo, quanta vileza!”7, dizia o Papa Paulo VI referindo‑se a “essas boas pessoas, que esquecem a beleza e a gravidade dos compromissos que os unem à Igreja”. Esta mesma situação, que talvez nestes anos tenha ficado mais patente, há de levar‑nos a detestar a falsidade, por ínfima que possa parecer, porque “a mentira opõe‑se à verdade como a luz se opõe às trevas, a piedade à impiedade, a justiça à iniqüidade, a bondade ao pecado, a saúde à doença e a vida à morte. Portanto, quanto mais amemos a verdade, tanto mais devemos aborrecer a mentira”8.

Não se trata de saber até que ponto se podem dizer coisas falsas sem incorrer em falta grave. Trata‑se de detestar a mentira em todas as suas formas, de dizer a verdade total; e quando por prudência ou caridade não seja possível fazê‑lo, então devemos ficar calados, mas não inventar recursos formalistas que tranqüilizem falsamente a consciência9. Devemos amar a verdade em si mesma e por si mesma, e não apenas pelas suas conseqüências em relação ao próximo. Devemos detestar a mentira como coisa torpe e vil, seja qual for o fim com que lancemos mão dela. Devemos detestá‑la porque é uma ofensa a Deus, suma Verdade.

Acredita‑se facilmente naquilo em que se deseja acreditar. E assim, por exemplo, muitos inimigos da Igreja estão sempre inclinados a dar por certos todos os rumores injuriosos que lhes chegam aos ouvidos, julgando sem indícios suficientes e até informando a opinião pública com base em conjecturas. E isso, no fim das contas, equivale à mentira propriamente dita, pela sua origem e pelas suas conseqüências.

Contra a mentira, friamente empregada tantas vezes, nós temos a verdade, a clareza, a sinceridade sem equívocos nem ambigüidades: a prática firme de uma veracidade nas relações pessoais diárias, nos negócios, na família, nos estudos e nos órgãos de opinião pública quando temos acesso a eles. Não sabemos responder a uma mentira com outra mentira.

A oração litúrgica convida‑nos a clamar: Que a nossa voz, Senhor, o nosso espírito e toda a nossa vida sejam um contínuo louvor em vossa honra...10 Que a nossa conversação seja sempre veraz, própria de um filho de Deus.

(1) Mt 10, 24‑33; (2) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 50; (3) Mc, 11 27‑33; (4) C. Burke, Consciencia y libertad, Rialp, Madrid, 1976, pág. 51, nota 7; (5) ib.; (6) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 337; (7) Paulo VI, Alocução, 17‑II‑1965; (8) Santo Agostinho, Contra a mentira, 3, 4; (9) cfr. São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, III, 30; (10) Liturgia das Horas, Oração de Laudes da 2ª semana.

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